(Olá África) Amargo, picante, azedo, doce: como os sabores da África chegaram à China

Visitantes experimentam café no pavilhão da Etiópia durante a oitava Exposição Internacional de Importação da China (CIIE), em Xangai, no leste da China, em 7 de novembro de 2025. (Xinhua/Meng Chenguang)
O amargor suave do café etíope, o calor intenso da pimenta ruandesa, a acidez refrescante de um vinho sul-africano, a doçura melada do abacaxi beninense — a partir de 1º de maio de 2026, a abolição das tarifas de importação sobre produtos de 53 nações africanas levará esses sabores, e inúmeros outros, às mesas chinesas.
por Yang Dingdu, você Huiyuan
NAIROBI, 29 de abril (Xinhua) — O amargor suave do café etíope, o calor intenso da pimenta ruandesa, a acidez refrescante de um vinho sul-africano, a doçura melada do abacaxi beninense — a partir de 1º de maio de 2026, a abolição das tarifas de importação sobre produtos de 53 nações africanas levará esses sabores, e inúmeros outros, às mesas chinesas.
O comércio que atravessa milhares de quilômetros nunca se resumiu apenas à tonelagem; é onde o gosto encontra a vida.
AMARGO: A ROTINA DIÁRIA
A Etiópia é o berço do café arábica. Reza a lenda que, há um milênio, um pastor no planalto de Kaffa, no sudoeste do país, descobriu as propriedades energizantes do cafeeiro. Desde então, a terra produz o grão.
Atualmente, a Etiópia produz 600 mil toneladas de café por ano. Para cerca de 25 milhões de pessoas — aproximadamente um quinto da população — o café é a base de seu sustento e o principal produto de exportação do país.
No entanto, para agricultores como Tesfaye Gabru, que cresceu nessas terras altas, a economia do café sempre foi decididamente amarga. Ele viu gerações de produtores carregarem grãos meticulosamente cultivados por trilhas na montanha, enfrentarem filas em postos de compra locais e saírem com preços que pouco condiziam com o esforço investido.

Um trabalhador verifica o sabor do café em uma fábrica de processamento de café em Adis Abeba, Etiópia, em 13 de fevereiro de 2026. (Xinhua/Xie Jianfei)
As oscilações nos mercados globais de commodities, as inconstâncias climáticas e a escassez de capacidade de processamento interna significavam que os grãos de alta qualidade raramente alcançavam preços premium. Essa injustiça — sofrida safra após safra, ano após ano — é a amargura que se esconde por trás do sabor.
O apetite cada vez mais voraz da China por café oferece um alívio. Com o aumento dos pedidos, a AWO Coffee Company, de Gabru, mudou de rumo; praticamente todo o seu volume de exportação agora se destina à China.
A demanda constante permite que a empresa ofereça aos pequenos produtores margens melhores e expanda sua folha de pagamento durante a época da colheita. A política de tarifa zero encorajou ainda mais Gabru, proporcionando a base financeira necessária para construir sua própria torrefação nos arredores de Addis Abeba — algo que ele agora tem confiança para fazer pela primeira vez.
Empresas chinesas estão indo direto à fonte. A Changsha Saturnbird Coffee firmou recentemente um pacto estratégico com a Etiópia, criando um corredor logístico direto por via marítima e ferroviária que se estende das terras altas africanas até o coração da província de Hunan.
Wang Ling, gerente geral da empresa, afirma que o feijão etíope faz sucesso entre os consumidores chineses e planeja ampliar a compra direta para “beneficiar tanto o produtor quanto o consumidor”. Para os agricultores que passaram anos na fila por uma ninharia, isso é mais do que uma promessa corporativa — são anos de trabalho árduo e silencioso que, aos poucos, se transformam em uma recompensa tangível.
PICANTE: UMA AMBIÇÃO ARDENTE
Herman Uvizeyimana passou anos estudando na China, onde viu em primeira mão como os produtos chineses — acessíveis e bem-feitos — encontravam compradores ávidos em todo o mundo. Quando retornou a Ruanda em 2018, ele se dedicou ao comércio entre os dois países.
Mas o doutor formado pela Academia Chinesa de Ciências tinha uma ambição ainda maior. Trazer produtos chineses não era suficiente. Ele queria enviar produtos ruandeses na direção oposta — para gerar divisas para seu país e colocar renda real nas mãos dos agricultores ruandeses.

Trabalhadores trabalham na fábrica agrícola Fisher Global no Parque Industrial de Rwamagana, Província Oriental, Ruanda, 14 de abril de 2026. (Xinhua/Ju Yinhe)
Em 2021, ele soube que as pimentas secas de Ruanda haviam garantido acesso ao mercado chinês. Ele viu uma oportunidade: a pimenta seca de Ruanda é quatro vezes mais picante que as variedades comuns, e a China tem uma das comunidades de amantes de especiarias mais dedicadas do mundo.
Mas a pimenta era uma cultura de nicho em Ruanda, e os agricultores locais estavam céticos. Uvizeyimana liderou o processo, indo pessoalmente aos campos e aprendendo do zero como selecionar a terra, propagar as mudas e secar a colheita. O primeiro ano foi difícil. A qualidade irregular fez com que apenas um contêiner fosse vendido. “Foi um golpe duro”, disse ele.
Ele não desistiu. Ensinou aos agricultores os princípios básicos do cultivo e do controle de pragas, foi de porta em porta coletar pimentas frescas e supervisionou a secagem e o processamento na fábrica para garantir a consistência da qualidade. A confiança foi conquistada aos poucos. No segundo ano, as exportações saltaram para 10 contêineres. “Nossa confiança foi construída gradualmente.”
Hoje, a Fischer Global de Uvizeyimana exporta de 200 a 300 toneladas de pimenta seca para a China anualmente, com uma área plantada que agora chega a 300 hectares. O que seus anos na China lhe proporcionaram foi mais do que conhecimento e técnica — foi a coragem de enxergar uma oportunidade e a vontade de levar outros nessa jornada. O picante não é apenas uma sensação; é a motivação para partir e liderar o caminho.
ACIDEZ: A VANTAGEM DA SAFRA
A colheita pode ter terminado, mas as linhas de engarrafamento da Vinícola Diemersdal, na Cidade do Cabo, funcionam incessantemente. Grande parte dessa carga líquida tem como destino a China.
“As raízes vitivinícolas da África do Sul remontam a 1659, o que nos torna a região produtora mais antiga do Novo Mundo”, disse Steffi Layer, gerente de vendas internacionais da propriedade, com evidente orgulho.

Barris de carvalho são vistos nas instalações de produção da Vinícola Diemersdal em Durbanville, Cidade do Cabo, África do Sul, em 31 de março de 2026. (Xinhua/Wang Lei)
Cultivados em solos graníticos ancestrais sob o céu mediterrâneo, os vinhos sul-africanos são celebrados por seu caráter ousado, porém refinado – um frutado envolvente envolto em mineralidade, com uma acidez vibrante e marcante. É precisamente essa “acidez”, moldada ao longo de séculos pelo solo e pelo sol, que confere aos vinhos do Cabo sua voz distinta em meio à concorrência acirrada do mercado global.
Apesar de 17 anos de presença no mercado chinês e do crescente interesse da classe média chinesa por vinhos, os rótulos sul-africanos têm enfrentado dificuldades para alcançar seus concorrentes europeus. Tarifas e altos custos de frete têm sido um obstáculo constante.
Layer considera a política de tarifa zero um ponto de virada. Ela argumenta que, ao remover as taxas, os benefícios se espalharão por toda a cadeia de suprimentos — desde os exportadores e importadores até os vinhedos. “Estou confiante de que o vinho sul-africano será muito mais bem recebido nas prateleiras chinesas.”
DOCE: FRUTOS DO SEU TRABALHO
No Benim, o abacaxi preferido é o “Sugarloaf” — celebrado em toda a África por sua intensa doçura e acidez quase imperceptível. Essa fruta modesta é um pilar econômico para a nação da África Ocidental, com uma produção anual de cerca de 450.000 toneladas, gerando 1,2% do PIB e sustentando dezenas de milhares de famílias de agricultores.
Paradoxalmente, produtores como Tchegbenangnon Lanmandoclevo antes temiam uma safra abundante. A fartura não trazia alegria, mas angústia: montanhas de abacaxis apodrecendo em mercados locais pequenos demais para absorver o excedente. “Sem o mercado de exportação chinês, seria impossível vender esse volume”, disse ele.

Agricultores embalam abacaxis recém-colhidos na comuna de Ze, uma importante região produtora de abacaxi no sul do Benin, em 16 de março de 2026. (Foto de Seraphin Zounyekpe/Xinhua)
Os abacaxis do Benim conquistaram o mercado chinês em 2023, roubando a cena na Exposição Internacional de Importação da China e garantindo dezenas de milhões de dólares em encomendas. Hoje, Lanmandoclevo, de 55 anos, triplicou sua plantação para quase três hectares.
A política de tarifa zero promete tornar o negócio ainda mais atraente. Em uma recente cerimônia de lançamento de exportações no polo agrícola de Allada, Gaston Dossouhoui, ministro da Agricultura do Benin, elogiou a política como um catalisador para a modernização rural, a criação de empregos e a melhoria das condições de vida.
A doçura na língua de um comensal é o sustento de um agricultor. Cada Sugarloaf carrega, em si, a esperança renovada de uma família.
O paladar, afinal, é a única linguagem que não precisa de tradução. Uma antiga filosofia africana afirma: “Eu sou porque nós somos”. À medida que o vasto mercado consumidor da China se torna uma grande oportunidade para a África, os sabores do continente — encontrando seu caminho para as xícaras e pratos chineses — são a prova mais cotidiana e genuína de um destino compartilhado através de montanhas e mares.