5 de junho de 2026

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GREVE DE MAIS DE 1.500 FUNCIONÁRIOS PARALISA SERVIÇOS MUNICIPAIS EM QUELIMANE POR SETE MESES DE SALÁRIOS EM ATRASO

 A paralisação dos serviços municipais em Quelimane começou ainda antes do nascer completo do dia. Portões encerrados, balcões vazios e centenas de trabalhadores concentrados nos arredores do Conselho Municipal marcaram o arranque de uma greve por tempo indeterminado que já está a afectar o funcionamento de vários serviços públicos na capital da Zambézia.

Mais de 1.500 funcionários municipais decidiram cruzar os braços em protesto contra sete meses de salários em atraso, numa das maiores crises laborais registadas nos últimos anos na edilidade quelimanense. Os grevistas afirmam que a situação se tornou insustentável, com muitos trabalhadores sem capacidade de garantir alimentação, transporte e assistência médica às suas famílias.

O representante da comissão dos trabalhadores, Celestino Albano, disse que a decisão de avançar para a greve surgiu depois de sucessivas tentativas falhadas de diálogo com o município. Segundo explicou, os funcionários já haviam criado uma comissão de negociação desde o início da crise salarial, mas acusam o presidente do município, Manuel de Araújo, de ausência nos encontros agendados para discutir soluções.

“Não vamos voltar ao trabalho enquanto não houver respostas concretas”, afirmou Albano, visivelmente agastado com a situação. Entre os manifestantes, o sentimento predominante era de revolta e cansaço. Alguns trabalhadores relatavam dificuldades extremas para sustentar os filhos, pagar renda e comprar medicamentos.

Num testemunho carregado de emoção, Celestino Albano revelou que até a sua própria família está a sofrer os impactos directos da crise salarial. “Estou doente e o meu filho sofre de anemia porque não se alimenta devidamente”, lamentou.

Durante a paralisação, vários sectores municipais ficaram praticamente inoperacionais. Serviços administrativos, atendimento ao público e algumas actividades de rotina foram interrompidos, enquanto grupos de trabalhadores permaneciam concentrados junto às instalações municipais entoando palavras de ordem e exigindo o pagamento imediato dos ordenados em dívida.

Os trabalhadores acusam ainda o município de má gestão financeira. Segundo os grevistas, as receitas arrecadadas diariamente nos mercados municipais e no sector dos transportes públicos não estariam a ser canalizadas para o pagamento dos salários, levantando suspeitas sobre o destino dos fundos.

Face às denúncias, os manifestantes apelaram à intervenção urgente do Governo central e do Gabinete Central de Combate à Corrupção para investigar a gestão das receitas municipais e esclarecer as razões da crise.

De acordo com os trabalhadores, o último pagamento parcial ocorreu em Dezembro do ano passado, altura em que receberam apenas dois meses dos salários em atraso, sem que posteriormente houvesse regularização.

Entretanto, o Conselho Municipal de Quelimane tenta minimizar a dimensão da crise. O chefe do Gabinete do Presidente do Município, Carlos Jackson, considerou “normal” a manifestação dos funcionários tendo em conta as dificuldades enfrentadas.

Segundo explicou, os atrasos salariais estão relacionados com a demora no desembolso do Fundo de Compensação Autárquica pelo Governo central, situação que estaria a afectar a tesouraria municipal.

Sobre os trabalhadores sazonais, Carlos Jackson esclareceu que os constrangimentos resultam igualmente da migração do sistema de pagamentos do e-SISTAFE para o e-SISTAFE Municipal, processo que, segundo a edilidade, provocou entraves administrativos.

Enquanto isso, Quelimane entra numa nova semana sob clima de tensão laboral e incerteza. Nas ruas, entre munícipes sem atendimento e funcionários revoltados, a crise salarial transformou-se num retrato duro das fragilidades financeiras que afectam algumas autarquias do país.

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