Nas primeiras horas da manhã, o Vale do Infulene — cinturão verde indispensável para o abastecimento de hortícolas às cidades de Maputo e Matola — ganha vida entre o cheiro a terra molhada e a fumaça discreta do mormaço. No entanto, para quem depende da terra para viver, cada nova época agrícola traz consigo a incerteza marcada pelos extremos climáticos.
A rotina dos produtores locais é frequentemente interrompida por inundações devastadoras durante a época de chuvas. O Chefe Boavida, representante de cerca de 350 camponeses do vale, descreve um cenário recorrente de prejuízos acumulados.
“Quando chove muito, o campo fica totalmente alagado. Não há possibilidade de o camponês poder fazer a sua atividade livremente. Este ano, começamos a trabalhar só em maio. Em janeiro, fevereiro, março e abril não foi possível porque o campo estava inundado. Em fevereiro houve uma trégua, começamos a plantar, mas choveu em março e todas as culturas foram arrastadas pelas águas. É um prejuízo enorme para nós.”
A escassez de infraestruturas de escoamento agrava substancialmente o problema. Os produtores apontam para a necessidade urgente de limpeza e melhoria das valas de drenagem municipais e condutas entupidas para que as águas possam fluir até ao mar sem destruir as machambas.
Para além da drenagem, os agricultores enfrentam a falta de sementes resilientes e adaptadas às oscilações térmicas. A agricultora Josefa Chiriza, que cultiva couve, alface e folha de abóbora, lamenta a vulnerabilidade constante durante os meses de verão e a escassez de apoio técnico no terreno:
“Passamos mal com as chuvas no período de novembro a fevereiro. As condutas andam meio entupidas e dificulta muito o escoamento. As sementes que usamos não são resilientes às mudanças climáticas. Há uma técnica de agronomia que aparece, mas não é com frequência.”
O Chefe Boavida reforça que grande parte das sementes comercializadas no mercado local são importadas da África do Sul e perdem rapidamente a qualidade sob temperaturas elevadas. Uma das alternativas sugeridas pelos produtores passa pela criação de uma indústria nacional de produção de sementes e por uma assistência técnica governamental mais contínua.
Se no Vale do Infulene a prioridade imediata dos agricultores é conter as inundações e obter sementes adequadas, a nível nacional o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) prepara-se para responder ao impacto do fenómeno El Niño, associado à fraca precipitação e ao risco acrescido de seca severa, sobretudo nas regiões Sul e Centro de Moçambique.
Em declarações prestadas à Rádio Voz Coop, a Dra. Rita de Almeida, representante do INGD, destacou que a instituição já ativou ações antecipadas para a seca em 28 distritos estratégicos nas províncias de Gaza, Inhambane, Sofala, Manica, Tete e Cabo Delgado.
“A seca é um fenómeno de progressão lenta. Ela vai acontecendo, mas vai deixando os seus rastos que se prolongam no tempo, afetando a segurança alimentar, o consumo de água e a sobrevivência do gado. Por isso, ativamos ações antecipadas para intervir antes de entrarmos na fase crítica de emergência.”
| Medida | Descrição e Objetivos |
| Sistemas de Aviso Prévio | |
| Sementes e Reserva Alimentar | Distribuição de sementes de ciclo curto e incentivo a culturas tolerantes à seca (como ramas de batata-doce e mandioca), a par da promoção de celeiros melhorados para conservação do material colhido. |
| Furos Multiuso | Infraestruturas hídricas integradas criadas para garantir, num único ponto, água para consumo humano, abeberamento do gado e irrigação de hortícolas (com forte implementação em Gaza e Inhambane). |
| Proteção Social Monetária | Transferências financeiras diretas às famílias mais vulneráveis, permitindo-lhes adquirir alimentos ou bens essenciais antes do pico da crise. |
A implementação destas medidas antecipadas conta com o suporte financeiro e técnico da Equipa Humanitária Nacional, englobando agências das Nações Unidas e parceiros internacionais como o Programa Mundial de Alimentação (PMA), a FAO, a UNICEF, a Visão Mundial, a Save the Children e a Cruz Vermelha de Moçambique.
O contraste vivido em Moçambique evidencia os dois lados da mesma crise climática: enquanto os camponeses do Vale do Infulene lutam contra o alagamento dos terrenos e pedem valas de drenagem funcionais, o INGD mobiliza meios no interior para evitar que a escassez de chuva resulte em crises famélicas.
Fortalecer a drenagem urbana, apoiar o acesso a sementes de qualidade e massificar os sistemas de aviso prévio continuam a ser pilares cruciais para proteger a produção de alimentos e salvaguardar os meios de vida das comunidades vulneráveis de norte a sul do país.
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