Da promessa de 2016 ao lançamento de 2023, da consultoria à visita ao Brasil e, agora, à primeira pedra anunciada para 17 de Setembro de 2026, o BRT atravessa diferentes governos, ministros, instituições e calendários. A pergunta que permanece é simples: desta vez, o projecto entra finalmente na estrada?
Durante anos, a mobilidade na Área Metropolitana de Maputo foi sendo contada através de uma rotina conhecida: de manhã, milhares de passageiros procuram espaço nos chapas; ao longo do dia, as principais artérias ficam congestionadas; e, no fim da tarde, o regresso a casa transforma-se novamente numa disputa por transporte.
Foi neste cenário que o Bus Rapid Transit, conhecido pela sigla BRT, apareceu como uma promessa de transformação da mobilidade urbana.
A ideia não nasceu em 2026.
Pelo contrário, já tem uma história suficientemente longa para que, sempre que surge um novo anúncio, muitos cidadãos procurem no arquivo os anúncios anteriores. E é justamente aí onde a história começa a ganhar outras camadas.
Registos publicados pela imprensa moçambicana em Abril de 2023 recordavam que uma primeira tentativa de implementação do BRT tinha sido apresentada anos antes. A TV Miramar, numa publicação de 14 de Abril de 2023, descreveu o projecto como uma ideia que voltava a ser “ressuscitada”, depois de uma tentativa anterior que remontava a 2016. O jornal Savana, na sua edição de 14 de Abril de 2023, também escreveu que o Governo estava a recuperar um projecto apresentado pela primeira vez sete anos antes.
É uma distinção importante.
Por isso, falar simplesmente de um projecto que “começou em 2006” exige documentação adicional. O arquivo localizado para esta reportagem sustenta, com maior segurança, a existência de uma tentativa anterior em 2016, não o ano de 2006.
A história documental do actual MOVE Maputo, entretanto, ganhou uma nova base financeira em 2022, quando o Banco Mundial aprovou 250 milhões de dólares para melhorar a mobilidade na Área Metropolitana de Maputo. O financiamento destinava-se à construção do primeiro sistema BRT, melhorias de estradas, infra-estruturas para circulação não motorizada e medidas destinadas a grupos vulneráveis.
O actual projecto MOVE Maputo passou, assim, a ter uma estrutura diferente das tentativas anteriores.
O calendário ganhou uma nova página em 14 de Abril de 2023.
Nesse dia, a Televisão de Moçambique noticiou o lançamento do Projecto MOVE Maputo, então apresentado pelo Ministro dos Transportes e Comunicações, Mateus Magala.
O projecto tinha um financiamento de 250 milhões de dólares do Banco Mundial e previa a introdução do BRT na Região Metropolitana de Maputo. A previsão divulgada naquela altura apontava para a entrada em funcionamento do sistema até 2026.
Na descrição oficial do MOVE Maputo, o BRT seria implementado inicialmente através de corredores de elevada procura, com faixas dedicadas aos autocarros, enquanto o projecto incluiria também reabilitação de estradas, fortalecimento institucional e profissionalização do transporte público.
O PCA da Agência Metropolitana de Transportes, António Matos, citado na apresentação do projecto, indicava que as obras de reabilitação das estradas deveriam arrancar ainda naquele ano.
Naquele momento, portanto, o calendário parecia relativamente curto: lançamento em 2023, obras a avançarem e BRT operacional até 2026.
Mas a história ainda estava longe da fase dos autocarros.
Três meses depois, a narrativa mudou de “lançamento” para “estudo”.
Em 14 de Julho de 2023, o jornal O País noticiou que o Ministério dos Transportes e Comunicações tinha adjudicado a um consórcio de duas empresas a realização do estudo de viabilidade do BRT, no valor aproximado de 3 milhões de dólares.
As empresas indicadas foram a Royal HaskoningDHV e a Integrated Transport Planning, esta última baseada na África do Sul.
A informação foi avançada por Fátima Artur, coordenadora do projecto BRT, que explicou que a consultoria deveria trabalhar durante 12 meses para determinar, entre outros aspectos, os custos reais da infraestrutura, sistemas de sinalização, terminais, segurança e características dos futuros autocarros.
A reportagem acrescentava que o estudo de pré-viabilidade apontava para um corredor segregado de aproximadamente 22 quilómetros, partindo da Praça dos Trabalhadores e atravessando importantes artérias da Cidade de Maputo.
A previsão apresentada naquela altura era que o concurso para a empreitada pudesse ser lançado em 2024 e que as obras terminassem em 2026.
Ou seja: o anúncio de 2023 ainda não significava que a construção estivesse pronta para começar.
Era necessário estudar.
Os documentos oficiais do próprio MOVE Maputo ajudam a perceber melhor essa fase.
Segundo a Agência Metropolitana de Transportes, o contrato para o estudo de viabilidade detalhado foi assinado em 11 de Maio de 2023 com a Royal HaskoningDHV (Pty) Ltd.
Entre 29 de Maio e 2 de Junho de 2023, decorreu em Maputo a reunião de arranque do estudo, envolvendo a equipa do consultor, a equipa do MOVE Maputo e consultores do Banco Mundial.
A previsão oficial era que o estudo durasse 12 meses e produzisse os desenhos detalhados, as análises de viabilidade e os documentos necessários para lançar a empreitada. Na altura, esperava-se que as obras começassem já em 2024.
A geografia também foi sendo desenhada.
O projecto previa um corredor segregado de 22 quilómetros, entre a Baixa da Cidade de Maputo e a zona da Missão Roque, complementado por aproximadamente 39 quilómetros de vias não segregadas para ligações a Albazine, Zimpeto, Zona Verde, Matola Gare e Marracuene.
Enquanto os estudos avançavam, outra peça entrou no calendário.
Entre 6 e 15 de Julho de 2024, uma equipa do projecto realizou uma visita de trabalho ao Brasil para troca de experiências sobre o sistema BRT.
A equipa incluía o Presidente do Município da Matola, Júlio Parruque, o Director Nacional de Transportes e Segurança, Fernando Ouana, o PCA da Agência Metropolitana de Transportes, António Matos, vereadores e técnicos dos Municípios de Maputo e Matola.
Durante a missão, a equipa visitou, entre outros locais, a sala de controlo de segurança dos veículos e das rotas da Rede Metropolitana de Transportes Colectivos de Goiânia.
Era mais uma etapa de preparação.
O BRT ainda não transportava passageiros em Maputo, mas técnicos moçambicanos já procuravam observar, no terreno, como um sistema semelhante era controlado noutro país.
A promessa começava, assim, a ganhar uma dimensão mais técnica: não bastava anunciar autocarros; era necessário desenhar corredores, sistemas, terminais, operação, segurança e integração com os transportes existentes.
A passagem do tempo trouxe consigo um problema que o próprio projecto reconheceu.
Em 2025, o Ministério dos Transportes e Logística admitia preocupação com o ritmo de implementação do MOVE.
Um documento do projecto reproduziu declarações do Ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, segundo as quais o projecto já tinha contratos no valor de 55 milhões de dólares e esperava assinar os restantes até meados de 2026.
O governante apontava também para atrasos nos processos de aprovação por parte do financiador, que, segundo explicou, tinham comprometido o lançamento do concurso para a construção da infraestrutura do BRT.
A previsão de 2026, portanto, já não parecia tão simples como aquela apresentada no lançamento de Abril de 2023.
Em 12 de Setembro de 2025, o MOVE Maputo anunciou outro marco: a abertura oficial das propostas técnicas do concurso para a construção do BRT.
A Agência Metropolitana dos Transportes classificou o momento como um passo decisivo para o projecto.
A solução continuava a ser apresentada como um sistema destinado a transformar a mobilidade na Área Metropolitana de Maputo, abrangendo Maputo, Matola, Matola-Rio, Boane e Marracuene.
Aqui está uma das diferenças fundamentais em relação a 2023.
Já não se tratava apenas de contratar um consultor para estudar a viabilidade.
Agora havia propostas técnicas para a construção.
Ainda assim, entre o anúncio de uma empreitada e a obra física existe outra estrada administrativa: avaliação, adjudicação, contrato, mobilização, licenças, preparação dos terrenos, desvios de infra-estruturas e início efectivo dos trabalhos.
Já no terceiro ano de implementação, o próprio MOVE Maputo realizou uma revisão de meio-termo.
O encontro contou com a participação do Ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, dos Presidentes dos Municípios da Matola e Marracuene, Júlio Parruque e Shafee Sidat, respectivamente, além de vereadores dos municípios abrangidos e representantes da Agência Metropolitana de Transportes.
Na ocasião, Matlombe apelou à aceleração da conclusão das obras em curso e ao início da construção do BRT.
“Não podemos comprometer as metas do Governo”, afirmou o ministro, segundo a publicação do projecto, defendendo maior coordenação entre o Banco Mundial, os municípios e as equipas envolvidas.
A frase revela a dimensão do problema: o desafio já não era explicar o que era o BRT. Era cumprir as etapas.
É neste ponto da cronologia que chegamos ao anúncio mais recente apresentado para esta reportagem: 17 de Setembro de 2026.
O projecto volta ao centro da atenção pública com a informação de que o Ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, deverá lançar a primeira pedra para o início da infraestrutura do MOVE/BRT.
O investimento global continua associado ao financiamento de 250 milhões de dólares do Banco Mundial. O próprio projecto confirma que a doação foi concebida para cinco anos e que o BRT constitui uma das principais componentes do programa.
Mas é aqui que o jornalismo precisa de travar por alguns segundos.
Primeira pedra não é o mesmo que sistema operacional.
Contrato não é autocarro em circulação.
Concurso não é viagem.
E promessa de conclusão não é conclusão.
O que existe documentalmente é um projecto que passou por financiamento, consultoria, estudo de viabilidade, desenho da solução, missão de troca de experiências, revisão de meio-termo, concurso para construção e, agora, o anúncio de uma nova etapa física.
De acordo com a documentação oficial do MOVE Maputo, o sistema BRT deverá criar corredores dedicados para transporte colectivo e melhorar a ligação entre diferentes zonas da Área Metropolitana de Maputo.
A solução inicialmente desenhada contempla um corredor segregado de 22 quilómetros e ligações complementares para diferentes zonas metropolitanas.
O projecto estima 124 mil beneficiários directos por dia nas rotas abrangidas pelo BRT, além de aproximadamente 95 mil cidadãos residentes nas áreas de intervenção das melhorias viárias integradas.
A intervenção, contudo, não se limita ao corredor principal.
O MOVE inclui também estradas alimentadoras e intervenções viárias. Entre as obras previstas encontram-se intervenções na Avenida da ONU, Avenida 24 de Julho e outras vias de Maputo e Matola.
Em Setembro de 2025, por exemplo, estavam em intervenção vias como Mathlemele-Wamatibjwana, Intaka-Boquisso, Khongolote-Molumbela e a Avenida 24 de Julho.
Aqui também é necessário separar o que foi anunciado do que já está decidido.
Em 2023, Fátima Artur, coordenadora do projecto BRT, explicou que o próprio estudo deveria determinar o modelo de autocarros, incluindo tamanho, modelo e fonte de energia. Naquele momento, segundo a responsável, ainda não estava definido se seriam veículos movidos a gás natural comprimido, híbridos ou outra solução.
Por isso, afirmações recentes sobre uma frota específica de autocarros eléctricos devem ser tratadas com cautela enquanto não houver confirmação documental actualizada do modelo final de aquisição.
O mesmo vale para números muito específicos de estações, terminais ou veículos: alguns foram apresentados como previsões ou componentes do projecto em diferentes fases, mas não devem ser confundidos automaticamente com aquilo que já foi contratado ou construído.
A história do BRT de Maputo não é apenas uma história de atrasos.
É também uma história de reformulação.
O projecto actual recebeu financiamento internacional, criou uma estrutura de implementação, contratou consultores, realizou estudos, promoveu visitas técnicas, iniciou obras complementares, abriu concursos e avançou para a fase de contratação da infraestrutura principal.
Mas é precisamente porque existe este longo arquivo que a primeira pedra de 2026 será observada de maneira diferente de um simples lançamento.
Em 2023, o BRT foi lançado.
Em 2023, foi necessário estudar.
Em 2024, houve troca de experiências.
Em 2025, o Governo reconheceu problemas de ritmo e, posteriormente, abriu propostas técnicas para a construção.
Em 2026, a promessa chega novamente ao ponto de partida físico: a primeira pedra.
Para quem vive diariamente entre Maputo, Matola, Marracuene e outras zonas da área metropolitana, o que importa no fim desta cronologia não é quantas vezes o projecto foi lançado, estudado ou anunciado.
Importa quando o passageiro puder entrar num autocarro, pagar a tarifa, encontrar uma via dedicada e chegar ao destino dentro do tempo prometido.
Essa será a passagem decisiva da história do BRT: do arquivo para a estrada.
Até lá, o projecto continuará a carregar uma espécie de memória própria. Cada novo anúncio traz consigo os anúncios anteriores. Cada novo calendário é comparado com o calendário que ficou para trás.
E é justamente por isso que, em Setembro de 2026, a pergunta já não é simplesmente se Moçambique precisa de BRT.
A pergunta que o arquivo deixou aos actuais gestores é outra:
depois de tantos estudos, anúncios, concursos, missões e calendários, quanto falta para o BRT deixar de ser uma promessa e passar a ser transporte público em circulação?
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