Categories: MDS News

DOMINGUES E MEXER: DUAS CARREIRAS, UMA CAMISOLA E UMA DESPEDIDA DOS MAMBAS

A história do futebol moçambicano também é feita de despedidas. Algumas acontecem em silêncio, outras diante de milhares de pessoas, com aplausos, emoção e a certeza de que determinados jogadores já deixaram uma marca que não desaparece quando penduram a camisola.

No grande jogo entre Moçambique e Senegal, no Estádio Nacional do Zimpeto, os Mambas viveram um desses momentos.

Domingues Pelembe e Mexer Sitóe foram homenageados pelo público moçambicano, numa despedida simbólica de dois jogadores que durante anos carregaram a camisola da Selecção Nacional e ajudaram a representar Moçambique nos grandes palcos do futebol africano.

Mais do que uma homenagem a dois jogadores, foi um reconhecimento a duas carreiras construídas por caminhos diferentes, mas unidas pela mesma bandeira.

DOMINGUES, O “PUTO MARAVILHA” QUE FEZ DA BOLA UMA LINGUAGEM

Elias Gaspar Pelembe, conhecido no futebol por Domingues, começou a construir a sua história ainda jovem, passando pelo Estrela Vermelha de Maputo antes de despontar no Grupo Desportivo de Maputo.

Foi nos “Alvi-Negros” que começou a ganhar notoriedade nacional. Em 2006, ajudou o Desportivo de Maputo a conquistar o Moçambola e a Taça de Moçambique, numa dobradinha que abriu caminho para uma carreira internacional de grande dimensão.

Em 2007, atravessou a fronteira para a África do Sul e assinou pelo SuperSport United. Foi aí que Domingues começou a ganhar estatuto no futebol sul-africano.

Na sua primeira temporada, contribuiu para a conquista do campeonato e recebeu uma distinção particularmente importante: foi eleito Jogador da Temporada da principal liga sul-africana, tornando-se o primeiro e, segundo a própria Premier Soccer League, o único moçambicano a conquistar esse prémio.

Depois veio o Mamelodi Sundowns, entre 2009 e 2015, clube onde conquistou mais títulos e consolidou a sua reputação como um dos jogadores moçambicanos de maior expressão no futebol sul-africano.

Mais tarde representou o Bidvest Wits, Polokwane City e Royal AM, antes de regressar a Moçambique para vestir a camisola da União Desportiva do Songo.

No Songo, Domingues ainda teve tempo para acrescentar outro capítulo à sua história. Em 2025, voltou a conquistar o campeonato nacional e a Taça de Moçambique, repetindo, quase duas décadas depois, a dobradinha que havia conseguido com o Desportivo.

Mas se os clubes ajudaram a construir a carreira de Domingues, foi nos Mambas que o seu nome ganhou uma dimensão particularmente especial.

O antigo capitão representou a Selecção Nacional durante mais de duas décadas. Foi chamado pela primeira vez em 2004 e chegou a desempenhar a função de capitão durante mais de dez anos. Participou em três edições do Campeonato Africano das Nações, incluindo as de 2010, 2024 e 2025.

Era o jogador que, muitas vezes, parecia falar com a bola.

O drible, a criatividade e a capacidade de criar momentos diferentes fizeram dele uma referência para várias gerações de adeptos moçambicanos.

O “Puto Maravilha” chegou, finalmente, ao último capítulo da carreira.

Em Fevereiro de 2026, anunciou o fim da carreira como jogador, depois de mais de 20 anos ligados ao futebol profissional. A União Desportiva do Songo preparou a sua integração na estrutura técnica do clube, abrindo uma nova etapa na vida daquele que durante tantos anos encantou os relvados.

MEXER, O DEFESA QUE LEVOU MOÇAMBIQUE À EUROPA

Se Domingues construiu a sua imagem através da criatividade, Edson André Sitoe, conhecido como Mexer, construiu a sua através da força, leitura de jogo e consistência defensiva.

Nascido em Maputo, Mexer iniciou a carreira no Desportivo de Maputo antes de dar o salto para Portugal.

Em 2010, chegou ao Sporting CP, mas foi através de empréstimos e, posteriormente, da passagem pelo Nacional e pelo Olhanense que começou a afirmar-se no futebol português.

A evolução levou-o até França, onde encontrou um dos capítulos mais importantes da sua carreira.

Em 2014, Mexer assinou pelo Rennes e permaneceu no clube durante cinco temporadas. Foi na Ligue 1 que o defesa moçambicano ganhou reconhecimento internacional, enfrentando alguns dos principais jogadores e clubes do futebol francês.

E em 2019 chegou um dos momentos mais marcantes da sua trajectória.

Mexer ajudou o Rennes a conquistar a Taça de França, depois de uma final diante do Paris Saint-Germain decidida nas grandes penalidades. Foi o primeiro grande troféu nacional da sua carreira em França.

Depois do Rennes, passou pelo Bordéus e pelo Estoril, regressando posteriormente ao futebol turco, onde representou o Bandırmaspor e, mais recentemente, o Keçiörengücü.

Mas nenhum desses palcos substituiu a camisola dos Mambas.

Mexer estreou-se pela Selecção Nacional em 2007 e fez parte da geração que representou Moçambique no CAN de 2010. Mais tarde voltou a marcar presença nas fases finais de 2023 e 2025.

A sua carreira internacional transformou-o numa das referências defensivas da Selecção.

Ao lado de jogadores como Domingues e, posteriormente, Reinildo Mandava, Mexer fez parte de uma geração que devolveu aos Mambas a ambição de competir com maior regularidade no futebol continental.

QUANDO O FUTEBOL DIZ “OBRIGADO”

A despedida de Domingues e Mexer não começou no Zimpeto.

Ela começou alguns meses antes, depois do CAN de Marrocos 2025, quando os dois anunciaram o encerramento do seu ciclo na Selecção Nacional, juntamente com Reinildo Mandava. A Federação Moçambicana de Futebol confirmou então que os três capitães colocavam um ponto final numa etapa que marcou uma geração do futebol nacional.

Mexer resumiu aquele momento com uma mensagem dirigida aos companheiros mais jovens, apelando à união e à responsabilidade de continuar a representar a Selecção.

Domingues, por sua vez, teve uma despedida marcada pela emoção e pela gratidão, depois de mais de duas décadas ao serviço dos Mambas.

Agora, diante do público moçambicano, o aplauso ganhou outro significado.

Não era apenas pelo que fizeram no último jogo.

Era por tudo aquilo que fizeram antes dele.

Pelos estádios percorridos.

Pelas viagens.

Pelas derrotas.

Pelas vitórias.

Pelos golos.

Pelos desarmes.

Pelas braçadeiras.

Pelos momentos em que a camisola dos Mambas pesou mais do que qualquer camisola de clube.

Domingues e Mexer seguiram caminhos diferentes.

Um fez da criatividade a sua assinatura.

O outro fez da defesa a sua trincheira.

Mas ambos encontraram o mesmo destino: a camisola de Moçambique.

E quando chegou a hora de dizer adeus, o país respondeu com aquilo que um jogador dificilmente esquece: aplausos.

Porque algumas carreiras terminam.

Alguns jogadores partem.

Mas certas histórias permanecem.

Domingues e Mexer já não precisam de correr atrás da história dos Mambas.

Eles próprios fazem parte dela.

Emuel Moisés

Share
Published by
Emuel Moisés
Tags: Desporto

Recent Posts

Workshop de Literatura Viva debate novos autores, leitura e inteligência artificial

A promoção de novos autores, os hábitos de leitura em Moçambique e o impacto da…

1 semana ago

Workshop de Literatura Viva cria espaço para novos escritores em Moçambique

A primeira edição do workshop de “Literatura Viva” pretende criar oportunidades para jovens interessados na…

1 semana ago

Obedes Lobadias defende novas formas de transformar literatura em actividade sustentável

A literatura pode gerar rendimento, mas a sua importância ultrapassa a dimensão financeira, defende o…

1 semana ago

Liderança Juvenil e Uso Consciente das Plataformas Digitais no Centro do Combate à Violência Contra a Criança

 Num contexto em que a proliferação do acesso à tecnologia e o recurso às redes…

1 semana ago

CMM E PARCEIROS IMPULSIONAM POTENCIAL DE KANYAKA: TURISMO, BIODIVERSIDADE E A MAIOR PONTE-CAIS DO MUNDO EM DESTAQUE

 O Presidente do Conselho Municipal de Maputo (CMM), Rasaque Manhique, dirigiu no Distrito Municipal KaNyaka…

1 semana ago

RETOMADA ECONÓMICA E TURÍSTICA: CMM PROMOVE KANYAKA COMO DESTINO ESTRATÉGICO DE INVESTIMENTO

 O Presidente do Conselho Municipal de Maputo (CMM), Rasaque Manhique, dirigiu nesta quinta-feira, 01 de…

1 semana ago