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INSATISFAÇÃO FINANCEIRA LEVA ADEPTO MOÇAMBICANO A DESEJAR DERROTA DOS MAMBAS NO CAN

CRISE FINANCEIRA VS PREMIAÇÕES MILIONÁRIAS NO DESPORTO

A actual crise financeira que afecta milhares de funcionários públicos em Moçambique começa a reflectir-se até no sentimento patriótico ligado ao desporto, com particular destaque para a Selecção Nacional de Futebol, os Mambas, que se preparam para competir no Campeonato Africano das Nações (CAN).

Nos últimos anos, o país atravessa uma conjuntura económica delicada, marcada por atrasos salariais, pagamento irregular de subsídios e acumulação de dívidas do Estado para com os seus próprios trabalhadores. Em alguns sectores, há funcionários que afirmam não receber salários há mais de três anos, situação que tem minado a confiança nas instituições públicas e aumentado o nível de frustração social.

É neste contexto que um adepto moçambicano, também funcionário público, manifestou publicamente o desejo de ver os Mambas derrotados no jogo frente à Nigéria, num gesto que muitos consideram extremo, mas que espelha o grau de revolta vivido por parte da população. A indignação surge após a promessa do Presidente da República, Daniel Chapo, de um prémio de 500 mil meticais para a selecção nacional, em caso de bons resultados no CAN.

Para o adepto, o contraste é gritante. Enquanto se anunciam prémios milionários para o futebol, ele afirma aguardar desde o ano passado pelo pagamento do 13.º salário, bem como de horas extraordinárias em dívida. A situação não é isolada e atinge professores, profissionais de saúde e outros agentes do Estado que, apesar de continuarem a trabalhar, vêem os seus direitos laborais sistematicamente adiados.

“Não é falta de amor à pátria, é cansaço”, resume um professor ouvido pela nossa reportagem, que prefere o anonimato. Segundo ele, o entusiasmo nacional em torno do futebol ignora o sofrimento diário de quem sustenta sectores-chave do Estado sem a devida compensação.

No sector da educação, os efeitos da crise são cada vez mais visíveis. Nos últimos exames finais, o país assistiu a reprovações em massa, sobretudo na nona classe, fenómeno que especialistas associam directamente à desmotivação dos docentes, à falta de condições de trabalho e ao não pagamento atempado de salários e subsídios. Professores desestabilizados, escolas carentes de recursos e alunos penalizados formam um ciclo difícil de quebrar.

Analistas ouvidos pela nossa redacção defendem que o desporto, apesar do seu papel unificador, não pode ser promovido à custa do agravamento das desigualdades e do silêncio em torno das dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores do Estado. Para estes, a polémica em torno dos prémios aos Mambas deve servir de alerta para a necessidade de maior equilíbrio nas prioridades governamentais.

Enquanto isso, o sentimento nas ruas é misto. Há quem continue a apoiar incondicionalmente a selecção nacional, vendo no futebol uma rara fonte de alegria colectiva. Outros, porém, começam a questionar se faz sentido celebrar vitórias desportivas num país onde muitos cidadãos lutam para pôr comida na mesa.

A situação lança um debate incómodo, mas necessário: até que ponto o brilho do desporto pode, ou deve, ofuscar a dura realidade económica vivida por grande parte dos moçambicanos? A resposta, ao que tudo indica, não cabe apenas nos estádios, mas nas decisões políticas que definem as verdadeiras prioridades nacionais.

Emuel Moisés

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Emuel Moisés
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