Workshop de Literatura Viva cria espaço para novos escritores em Moçambique
A primeira edição do workshop de “Literatura Viva” pretende criar oportunidades para jovens interessados na escrita, leitura e publicação de livros, aproximando aspirantes a escritores de profissionais com experiência no sector.
A iniciativa, promovida pela Inter Escolas Editores, realizou-se em Maputo e reuniu escritores, declamadores e outros intervenientes ligados à literatura, num espaço de partilha de experiências sobre escrita, publicação e desenvolvimento de novos autores.
Faudisia Isabel, mestre de cerimónias e uma das intervenientes na organização da iniciativa, explicou que o projecto nasceu da necessidade de criar oportunidades para uma nova geração de escritores moçambicanos.
Segundo Faudisia, a literatura moçambicana possui uma tradição forte, mas muitos dos autores que alcançaram reconhecimento internacional pertencem a gerações anteriores.
“A literatura moçambicana, na verdade, é bem forte; só que o que acontece é que os quadros que se destacaram internacionalmente já são antigos, e nós gostaríamos de ter, na geração actual, jovens que se interessem por esta literatura”, explicou.
A organizadora disse que, em vez de responsabilizar os jovens pela falta de envolvimento com a literatura, a iniciativa procura criar condições para que aqueles que já escrevem ou têm o sonho de publicar possam descobrir os caminhos necessários para transformar os seus textos em livros.
Da ideia ao livro
Faudisia Isabel revelou que a organização procurou envolver potenciais novos autores desde a preparação do workshop, através de uma iniciativa que permitiu aos interessados concorrer a bilhetes mediante o envio de textos autorais.
A partir desse processo, os participantes tiveram a oportunidade de apresentar os seus trabalhos e, durante o workshop, receber orientações sobre diferentes etapas da produção literária.
“Poderão ter, sim, mentoria, consultoria sobre como é que é o processo de publicação, como é que é o processo de composição do livro, todo o processo desde a concepção, tirar da mente ao papel, qual é o b-a-ba até chegar ao produto final”, afirmou.
A iniciativa não pretende, segundo Faudisia, ficar limitada à cidade de Maputo. A organização prevê alcançar outras províncias, considerando que existem escritores e produção literária fora da capital.
“Os escritores não estão apenas em Maputo e há muita coisa boa nas províncias”, disse, acrescentando que a intenção é levar o projecto directamente às comunidades de escritores noutras regiões do país.
Literatura também pode gerar rendimento
O escritor e declamador Obedes Lobadias, que participou no painel e apresentou uma das suas obras, considerou o workshop uma oportunidade para responder a uma das principais questões colocadas por jovens interessados na literatura: onde, como e com quem começar.
Para o artista, existem oportunidades para quem pretende desenvolver uma carreira ligada à literatura, embora considere que a criação literária não deve ser reduzida à procura de rendimento financeiro.
“A literatura não serve para ganhar dinheiro, mas é possível ganhar dinheiro com a literatura”, afirmou.
Na sua perspectiva, a literatura tem também uma dimensão ligada à formação e ao desenvolvimento humano, mas precisa de encontrar formas de sustentabilidade para que escritores e outros profissionais possam desenvolver as suas actividades.
Entre as possibilidades apontadas estão a comercialização de livros, a realização de performances, a organização de eventos e a criação de conteúdos capazes de despertar o interesse do público.
“Tem de ser inovador, tem de ser algo que vai ser impactante, transformador e tem de ser do interesse das pessoas”, defendeu.
E-books e o futuro da publicação
A digitalização dos livros foi igualmente abordada durante a entrevista. Obedes Lobadias considerou que a publicação de e-books representa uma oportunidade para os novos autores, mas alertou para a necessidade de respeitar os procedimentos técnicos e gráficos necessários à produção de uma obra digital.
Na sua leitura, não basta escrever e colocar o texto numa plataforma. É necessário garantir que a obra seja devidamente preparada para publicação e apresentação ao público.
O artista destacou ainda a importância do contacto entre escritores, editores e outros profissionais como forma de encontrar soluções para a publicação de obras, tanto em formato digital como físico.
Para Ubetshalobadias, apesar do crescimento das plataformas digitais, o livro impresso continua a desempenhar um papel importante na preservação da memória.
“Não podemos matar os livros físicos, são os nossos monumentos”, afirmou.
O escritor acrescentou que os novos autores podem aproveitar espaços como o workshop para criar redes de contacto, trocar experiências e encontrar parceiros para a publicação das suas obras.
Projecto pretende chegar às províncias
A organização considera a primeira edição um ponto de partida para uma iniciativa de maior alcance.
Faudisia Isabel afirmou que ainda não existe uma data definida para a próxima edição, uma vez que esta dependerá da avaliação da resposta obtida nesta primeira experiência.
Entretanto, garantiu que o projecto não deverá terminar em Maputo, defendendo a necessidade de aproximar as oportunidades dos escritores que desenvolvem o seu trabalho nas diferentes províncias.
“Começamos para avançar, não vamos terminar por aqui. Ainda há muito que se fazer pela literatura em Moçambique, e a literatura realmente vive”, concluiu.