Workshop de Literatura Viva debate novos autores, leitura e inteligência artificial
A promoção de novos autores, os hábitos de leitura em Moçambique e o impacto da inteligência artificial (IA) na educação e na literatura estiveram entre os principais temas debatidos durante um workshop de “Literatura Viva”, organizado pela Inter Scholam Editores, na cidade de Maputo.
O encontro reuniu escritores e outros intervenientes ligados à literatura com o propósito de promover novos autores e proporcionar um espaço de partilha de experiências sobre os desafios e as oportunidades existentes para quem pretende ingressar no mercado literário.
Entre os painelistas esteve o escritor Hélder Libelela, que afirmou possuir mais de 40 obras publicadas e defendeu a necessidade de criar mais espaços de diálogo e aprendizagem para os novos autores.
Segundo Libelela, os escritores que estão a surgir devem ser encarados como parte importante do processo de transformação social e educacional do país.
“Tudo o que é novo é um espelho, é uma inovação, é uma facilitação. Não há nada novo que não carregue consigo uma responsabilidade de transformação e facilitação”, afirmou.
Para o escritor, os desafios enfrentados pelos novos autores, incluindo os relacionados com a educação, não devem ser vistos apenas como obstáculos, mas também como oportunidades de aprendizagem e de procura de novas soluções.
“Eu penso sempre quando falamos deste aspecto dos desafios: por mais que seja na escrita, mesmo no contexto da educação, o desafio é um processo de aprendizagem”, explicou.
Libelela considerou, por isso, que iniciativas como o workshop podem contribuir para o desenvolvimento socioeconómico da sociedade, ao aproximarem novos escritores de experiências e conhecimentos de autores já inseridos no sector.
Leitura: o desafio está no conteúdo consumido
Ao avaliar o actual estágio da literatura moçambicana, o escritor considerou a questão complexa e chamou a atenção não apenas para a quantidade de leitura, mas sobretudo para a natureza dos conteúdos consumidos.
Na sua perspectiva, não é correcto afirmar simplesmente que os moçambicanos não lêem, uma vez que existe um volume significativo de leitura nas redes sociais e noutras plataformas.
“As pessoas lêem. A questão é o que as pessoas têm estado a ler”, afirmou.
O escritor defendeu que o desafio está em transformar os hábitos de leitura num processo capaz de contribuir para o desenvolvimento pessoal e para a formação do capital humano necessário ao desenvolvimento socioeconómico do país.
“Tu vais para o Facebook, vais para outras instâncias, tu vês as pessoas a ler. Mas a questão é: o que é que se está a ler? Ou como é que vai transformar esta leitura num processo pragmático?”, questionou.
Neste contexto, Libelela defendeu uma reflexão envolvendo o Ministério da Educação e a sociedade em geral sobre formas de estimular conteúdos de leitura considerados construtivos para crianças e jovens.
Inteligência artificial divide opiniões, mas pode apoiar aprendizagem
O uso da inteligência artificial na literatura foi outro dos assuntos abordados durante a entrevista.
Questionado sobre os riscos da tecnologia para o desenvolvimento literário, Libelela rejeitou a ideia de que a IA constitua, por si só, uma ameaça, defendendo que os resultados dependem da capacidade do utilizador para explorar a ferramenta.
“Não há nenhum perigo no uso da inteligência artificial”, afirmou, ressalvando, porém, que a utilização inadequada ou sem domínio da ferramenta pode limitar os benefícios que dela podem ser retirados.
O escritor considera que a IA pode contribuir para melhorar a escrita, nomeadamente através da revisão e correcção de textos, permitindo que os utilizadores tenham contacto frequente com estruturas linguísticas e palavras adequadas a diferentes contextos.
“Quanto mais eu tiver os meus textos revisados pela inteligência artificial, isto automaticamente implica que eu estou a mergulhar numa arena de textos bem corrigidos”, explicou.
Libelela comparou ainda a actual discussão sobre a inteligência artificial com a introdução do computador no processo de ensino e aprendizagem. Segundo o escritor, muitas tecnologias inicialmente encaradas como novidade acabam por se tornar instrumentos comuns no quotidiano.
Para ele, o debate actual em torno da IA deve ser encarado como parte de um processo de adaptação às novas tecnologias.
“A inteligência artificial vai ser o mesmo: depois de daqui a um tempo já não vai se conversar sobre inteligência artificial, porque vamos ver os benefícios. É algo novo e isso sempre traz debates”, concluiu.
O workshop de “Literatura Viva” insere-se, assim, num debate mais amplo sobre o papel da literatura, da leitura e das novas tecnologias na formação de novos autores e no desenvolvimento educacional e social de Moçambique.