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NÃO, MOÇAMBIQUE NÃO “NASCEU” HÁ 49 ANOS: O QUE SIGNIFICAM AS IDADES DE ÁFRICA, MAPUTO E DO PAÍS?

Nos últimos dias, uma publicação nas redes sociais gerou intenso debate ao afirmar que “África tem 61 anos, Moçambique 49 e Maputo 136”. A frase, partilhada em tom de meme, acabou por provocar confusão entre muitos internautas, sobretudo jovens, que passaram a interpretar esses números como sendo a “idade real” do continente, do país e da capital moçambicana.

Entretanto, historiadores e estudiosos da sociedade moçambicana explicam que os números referem-se a marcos históricos diferentes e não ao tempo de existência geográfica ou humana destes territórios.

África, por exemplo, não tem apenas 61 anos. O continente africano existe há milhões de anos e é considerado o berço da humanidade. O número “61 anos” está ligado à criação da Organização da Unidade Africana (OUA), fundada em 25 de Maio de 1963, em Addis Abeba, Etiópia, actualmente transformada em União Africana (UA). É por isso que todos os anos se celebra o Dia de África nessa data.

Em 2026, a União Africana completa 63 anos e não 61, como ainda circula em algumas publicações.

No caso de Moçambique, os “49 anos” também não representam a existência do território moçambicano. Referem-se apenas ao período de independência nacional. Moçambique conquistou a independência de Portugal a 25 de Junho de 1975, após uma longa luta armada de libertação nacional liderada pela FRELIMO.

Assim, em 2026, o país celebra 51 anos de independência e não “51 anos de existência”. Muito antes da independência, o território já possuía organização social, reinos africanos, comércio costeiro e contacto com árabes, persas e outros povos.

Aliás, o próprio nome “Moçambique” tem origem histórica anterior à colonização portuguesa. Segundo vários registos históricos, o nome deriva de “Mussa Bin Bique” ou “Musa Al Bik”, um comerciante árabe que vivia na Ilha de Moçambique aquando da chegada dos portugueses à costa oriental africana.

Foi em 1498 que o navegador português Vasco da Gama passou pela Ilha de Moçambique durante a sua viagem marítima rumo à Índia. A ilha acabaria por tornar-se um importante entreposto comercial e, mais tarde, capital da então colónia portuguesa.

Já Maputo também possui uma história frequentemente mal interpretada nas redes sociais.

A actual capital moçambicana começou por ser uma povoação conhecida como Lourenço Marques, nome dado em homenagem ao comerciante e explorador português do século XVI. A localidade foi elevada oficialmente à categoria de cidade em 10 de Novembro de 1887.

Um ano depois, em 1898, Lourenço Marques substituiu a Ilha de Moçambique como capital da colónia portuguesa, graças à sua posição estratégica no sul do território e às ligações comerciais com a África Austral.

Após a independência nacional, o então Presidente Samora Machel decidiu mudar o nome da cidade para Maputo, em Fevereiro de 1976, numa medida inserida no processo de valorização da identidade nacional e africana.

Por isso, quando se afirma que “Maputo tem 136 anos” ou “139 anos”, fala-se do período desde a elevação da cidade à categoria oficial de cidade e não do tempo de existência humana naquela região, que é muito mais antigo.

Especialistas defendem que a interpretação correcta destes números é fundamental para evitar desinformação histórica nas redes sociais.

Segundo académicos moçambicanos, comparar “idade de independência”, “idade de elevação a cidade” e “idade de organizações políticas” como se fossem a mesma coisa cria confusão entre gerações mais novas e empobrece o debate histórico.

Na prática, os números representam realidades distintas:

• África: idade da organização continental africana (OUA/UA)

• Moçambique: anos de independência nacional

• Maputo: anos desde a elevação à categoria de cidade

A história de Moçambique, de África e da própria cidade de Maputo é muito mais antiga, profunda e complexa do que simples números publicados em memes virais.

Emuel Moisés

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Emuel Moisés

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