GRAÇA MACHEL APELA AOS MOÇAMBICANOS PARA REGRESSAREM DA ÁFRICA DO SUL E RECOMEÇAREM A VIDA COM DIGNIDADE

A onda crescente de ataques xenófobos contra cidadãos estrangeiros na África do Sul continua a gerar preocupação entre famílias, governos e organizações da sociedade civil. Entre os afectados estão centenas de moçambicanos que, apesar de muitos possuírem documentação válida para permanecer no país vizinho, acabaram também vítimas de violência, intimidação e destruição de bens.
Face a este cenário, a activista social Graça Machel dirigiu uma mensagem de esperança e incentivo aos compatriotas que aguardam o repatriamento para Moçambique, apelando para que regressem às suas comunidades de origem e utilizem a experiência adquirida no estrangeiro como ponto de partida para reconstruírem as suas vidas.
O apelo foi feito em Pretória, durante um encontro de solidariedade com um grupo de moçambicanos afectados pelos ataques registados na zona de Mamelodi. Na ocasião, Graça Machel reconheceu o sofrimento enfrentado pelos compatriotas, mas defendeu que o regresso ao país deve ser encarado como um novo começo, baseado no trabalho, na iniciativa própria e na valorização das competências adquiridas ao longo dos anos na África do Sul.
Segundo explicou, o Governo de Moçambique está a prestar apoio aos cidadãos repatriados, garantindo o transporte de regresso, alimentação durante 15 dias e a distribuição de sementes para estimular o reinício da actividade agrícola nas comunidades de origem.
Dirigindo-se aos moçambicanos presentes, Graça Machel incentivou-os a manter o espírito de trabalho que os levou a procurar melhores condições de vida além-fronteiras.
“Quando voltarem para casa, continuem com esse espírito. Procurem alguma coisa para fazer. Muitos de vocês adquiriram habilidades enquanto trabalhavam aqui. Usem esse conhecimento para trabalhar para vocês mesmos.”
A activista alertou ainda que a actual crise vai além da questão migratória e representa uma ameaça à convivência entre os povos africanos. Para Graça Machel, a violência xenófoba está a enfraquecer o tecido social do continente e exige uma resposta política articulada.
Recorrendo à imagem de uma manta tradicional, explicou que África deve ser entendida como uma casa comum, onde a divisão entre os povos prejudica todos os países.
Segundo defendeu, os líderes africanos precisam de se reunir para analisar em profundidade as causas da xenofobia e encontrar soluções duradouras que promovam a convivência pacífica, a cooperação regional e o respeito pelos direitos humanos.
Apesar da dor causada pelos ataques, Graça Machel deixou uma mensagem firme aos moçambicanos: não responder à violência com violência. A activista apelou para que os cidadãos não pratiquem actos de retaliação contra sul-africanos residentes em Moçambique, defendendo que a paz e o diálogo continuam a ser o único caminho para preservar a unidade entre os povos africanos.
Os episódios de violência xenófoba voltam a expor a vulnerabilidade de milhares de migrantes na África Austral e reforçam os desafios enfrentados pelos governos da região na protecção dos seus cidadãos. Ao mesmo tempo, reacendem o debate sobre a necessidade de fortalecer os mecanismos de cooperação entre os Estados da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), de modo a prevenir novos episódios de violência e garantir a segurança das populações migrantes.
A mensagem de Graça Machel procura transformar um momento de profunda adversidade numa oportunidade de reconstrução, incentivando os moçambicanos que regressam ao país a apostarem no trabalho, no empreendedorismo e na esperança, sem perder de vista os valores de solidariedade e fraternidade que historicamente unem os povos da região.